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Brasil/Paraguay - Outubro 2025

  • Dec 8, 2025
  • 8 min read

Saí de Orlando no dia 30 de setembro, de manhã. O voo até o Panamá foi tranquilo, uma daquelas conexões em que o tempo passa mais devagar, mas não o bastante pra descansar. De lá peguei a última perna do voo até São Paulo. Cheguei por volta das dez da noite, cansado, com o corpo pedindo cama e a cabeça já mapeando o que vinha a seguir. Fui direto pra casa do meu primo Thales, onde passaria a noite antes de seguir viagem.


Na manhã seguinte encontrei meu pai no aeroporto. Ele vinha do Rio. Começamos a conversar sobre umas músicas que tenho feito. Entramos no avião e seguimos ouvindo elas até Araçatuba. O voo SP–ARU é rápido, coisa de cinquenta minutos, uma hora no máximo. Chegamos logo depois do almoço.


Passei o dia desfazendo a mala grande pra montar uma menor. Meu cronograma estava uma bagunça deliciosa: chegar no Brasil, ir pro Paraguai, voltar e seguir pra Macaé, depois pro Rio pra fotografar mais um show com a Yvi, voltar pra Macaé, ir pra Campos pro casamento da Letícia e, só então, tentar descansar um pouco ou fingir que ia.


Pra organizar a linha do tempo:

30 de setembro: Orlando – SP

1 de outubro: Araçatuba

2 de outubro: Araçatuba – SP

3 de outubro: SP – Assunção

8 de outubro: Assunção – SP – Rio – Macaé

10 de outubro: Show do Projeto Sola (Rio de Janeiro)

11 de outubro: Casamento da Letícia (Campos dos Goytacazes)


Mas essa tour histórica toda é assunto pro próximo post.Nesse aqui, eu quero falar do Paraguai, alguns lugares, alguns cliques, e umas impressões rápidas desse país que eu estava visitando pela segunda vez. Ou talvez pela primeira, se eu considerar que a anterior foi em 2008 e eu não lembro de quase nada.


Me dei a missão de experimentar e testar a WCL nessa próxima perna de viagens, porque seriam lugares que eu já fotografei, em sua grande maioria, e teria um show pra testar o desempenho na semana seguinte. Por enquanto, queria ver se o que muitos youtubers dizem é verdade: que é um acessório indispensável para fotografia de viagem. E vamos aos testes. Já coloquei o adaptador na Fuji e fomos explorar a cidade.


Logo de cara, fomos para o shopping que ficava do lado do nosso hotel, o Shopping Del Sol, onde fiz algumas fotinhas. Shopping legal, diferente dos do Brasil e dos Estados Unidos. Viemos também para o Paraguai pra fazer umas comprinhas. Meu irmão está pra ter nenê em dezembro, então comprar algumas coisas pro bebê estava, com certeza, nos planos.


Shopping Del Sol, Assuncion - Foto: Rafael Belentani Barretto
Shopping Del Sol, Assuncion - Foto: Rafael Belentani Barretto

Antes de poder usar os adaptadores WCL e TCL de maneira nativa na Fujifilm X100VI, eu tive que fazer uma adaptação. Originalmente, nas câmeras da série X100 mais antigas, era preciso entrar no menu e dizer manualmente à câmera que você estava usando um adaptador, seja o TCL (Tele Conversion Lens) ou o WCL (Wide Conversion Lens).


Com o passar dos anos, a Fujifilm implementou um sistema de ímãs dentro dos adaptadores, que aciona automaticamente o modo correspondente assim que a lente é encaixada. A câmera reconhece o acessório e ajusta tudo internamente. Esse sistema começou a partir da geração “Mark II” dos adaptadores, lançada junto com a X100F, e segue funcionando até hoje, incluindo na X100V e X100VI.

Os meus adaptadores, porém, são da primeira geração, que não possuem esse ímã. Ou seja, a câmera não reconhece automaticamente o WCL, e aí foi preciso improvisar um pouco pra fazê-lo funcionar como se fosse nativo.


Sabendo disso, o que eu fiz: achei um ímã pequeno o suficiente pra caber dentro da lente, mas que não atrapalhasse o movimento do foco. Testei pra descobrir a polaridade que ativava cada adaptador e, depois de alguns testes, colei o ímã no lugar certo com cola UV, pra garantir que não soltasse com facilidade. Problema resolvido.


Com os adaptadores funcionando, mas sabendo que teria que ficar trocando entre as três lentes 28, 35 e 50mm e o quanto isso poderia ser desafiador durante o dia, decidi focar apenas nas de 28 e 35 para essa viagem. Queria abrir mais o enquadramento, respirar um pouco dentro das composições e testar como a Fuji se comportava nessas duas distâncias. No fim, o objetivo era simples: entender se o WCL realmente transformava a experiência de fotografar ou se era só mais um acessório bem falado na internet.


Fotografar em 28mm é quase um exercício de humildade. De repente, o mundo não gira mais em torno do que está no centro. Tudo importa. As bordas, os vazios, o que escapa do quadro. Fotografar wide é se permitir perder o controle um pouco, deixar que o ambiente respire junto com o sujeito. É estranho no começo. A distância engana, a proporção se estica, e aquilo que antes parecia próximo agora parece distante demais. Mas também é libertador.


Com a 28mm, senti que as fotos começaram a contar mais sobre o lugar do que sobre mim. Cada esquina, cada reflexo, cada sombra virou um personagem à parte. A cidade deixou de ser cenário e virou presença. O enquadramento ficou mais honesto, menos sobre estética e mais sobre contexto. De certa forma, é uma lente que te obriga a escutar antes de falar.


Há algo quase cinematográfico nessa distância focal, o jeito como as linhas se encontram, como o ar entre as coisas ganha forma. Em 28mm, a fotografia deixa de ser uma janela e vira uma porta. Você entra na cena. Não dá mais pra fingir que está só observando. É preciso se mover, chegar mais perto, se expor. E talvez seja isso que eu mais tenha gostado: a sensação de estar dentro da foto, não apenas atrás dela.


Assunção me recebeu com um sol preguiçoso e um vento seco que levantava poeira das ruas. A cidade tem um ritmo próprio, uma calma que engana. À primeira vista parece lenta, quase parada no tempo, mas basta andar um pouco pra perceber que tudo pulsa, só que em outro compasso.


A luz é diferente. Mais amarela, mais densa, quase tátil. Fotografei nas primeiras horas da manhã e no fim da tarde, e em ambos os casos a sensação era a mesma: tudo parecia envolto em um leve tom de nostalgia. As fachadas descascadas, os letreiros antigos, os reflexos nos vidros dos carros, tudo parecia pedir pra ser fotografado em silêncio.


Uma rua no centro de assuncion - Foto: Rafael Belentani Barretto
Uma rua no centro de assuncion - Foto: Rafael Belentani Barretto

Caminhar por Assunção é se deparar com contrastes o tempo todo. Ruas largas que terminam em becos, casarões coloniais ao lado de prédios modernos, o barulho de buzinas se misturando com o som distante de alguém tocando guitarra em algum quintal. Não é uma cidade que se mostra de imediato. Ela vai se revelando aos poucos, conforme você desacelera.


Com a 28mm, cada esquina parecia maior do que realmente era. As calçadas ganhavam profundidade, e o horizonte se estendia até onde o olho não alcançava. A lente wide me fez perceber que Assunção não é feita de grandes monumentos, mas de pequenos detalhes que vivem nas margens, um vendedor de frutas rindo sozinho, uma sombra projetada no muro certo, uma criança atravessando a rua com o tempo do sol.


Fotografar lá foi como conversar com alguém que fala baixo. É preciso chegar mais perto, ouvir com atenção, e deixar o silêncio preencher o resto.


O Palacio de los López é, talvez, o símbolo mais imponente de Assunção. Construído a partir de 1857 por ordem de Carlos Antonio López para ser a residência de seu filho, o futuro presidente Francisco Solano López, o palácio carrega tanto a elegância da arquitetura neoclássica quanto as cicatrizes da história paraguaia. A construção foi interrompida durante a Guerra do Paraguai e só terminou muitos anos depois, já marcada por outro tempo.



Fotografar o palácio foi quase como entrar num quadro. O sol estava alto, o céu limpo, e os aspersores do jardim criavam uma névoa fina que parecia transformar o ar em vidro. A lente de 28mm deu o respiro que a cena pedia, o palácio, as árvores, o gramado e o céu conversando dentro do mesmo quadro. Era uma imagem sobre espaço e silêncio. Gosto quando a arquitetura deixa de ser só forma e passa a ter atmosfera. Nesse dia, parecia que o prédio respirava.


Algumas ruas do centro de Assunção ainda guardam o ritmo de uma cidade pequena. As fachadas antigas, os tons brancos e vermelhos, as árvores lançando sombra sobre o asfalto quente. Caminhar ali com a 28mm foi como testar a paciência da luz. Cada esquina tinha um equilíbrio diferente entre sombra e claridade, e o calor fazia tudo vibrar um pouco mais.


O enquadramento aberto ajudou a contar a história do lugar sem precisar de palavras. As calçadas estreitas, os fios cruzando o céu, uma pessoa parada à beira da rua observando o movimento, pequenos elementos que sozinhos não dizem nada, mas juntos formam a memória de uma cidade. Essa foi uma das cenas em que percebi o quanto fotografar wide te obriga a prestar atenção nas bordas. É ali que a vida acontece.


Esse prédio, com sua fachada dourada e bandeirolas coloridas cruzando o céu, é um dos recortes mais vivos do centro. Antigo, com traços europeus e uma presença quase teatral, hoje abriga o Museo de la Economía. O contraste entre o edifício histórico e o caos moderno em volta é o que torna a cena interessante.


Museu da Economia - Foto: Rafael Belentani Barretto
Museu da Economia - Foto: Rafael Belentani Barretto


Com a 28mm, a rua inteira entrou na foto, o prédio, os passantes, as cores, o trânsito. Tudo coexistindo em um mesmo plano. Foi uma daquelas imagens em que a lente serve mais como janela do que como lupa. Nada é isolado. Tudo é parte do mesmo quadro.


A luz do meio-dia era forte, mas não incômoda. Ela acentuava as texturas da fachada, o relevo das janelas, o amarelo da parede, e fazia as bandeirolas flutuarem no contraste do céu azul.


O Panteón Nacional de los Héroes é um dos lugares mais solenes de Assunção. Sua cúpula branca e colunas monumentais abrigam os restos mortais de figuras históricas do país, incluindo os López. O prédio foi inspirado no Hôtel des Invalides, de Paris, e começou a ser construído em 1863. É o tipo de lugar em que o tempo parece falar mais devagar.



Do lado de fora, o calor era quase palpável. A bandeira do Paraguai tremulava com força, e as cores saturadas do céu contrastavam com o tom pálido da pedra. A 28mm permitiu que a composição respirasse, incluindo a rua, as pessoas, e o movimento em volta, como se o monumento observasse a vida moderna continuar.


Lá dentro, a luz muda completamente. A penumbra filtra o ar, e as janelas da cúpula deixam feixes de claridade caírem sobre as colunas. Fotografei em preto e branco quase sem pensar. Era o único jeito de registrar o silêncio. O contraste entre a luz e a sombra parecia revelar a textura do tempo, e cada detalhe da arquitetura ganhava um peso simbólico, não só o que foi construído, mas o que resistiu.

Estar em Assunção com uma câmera na mão foi menos sobre registrar e mais sobre observar. Acho que essa é a maior lição de uma lente wide: ela te lembra que o mundo é maior do que o enquadramento. Que existe vida fora do foco, e beleza no que passa rápido demais pra ser notado.



Durante esses dias, percebi que fotografar não era tanto sobre caçar imagens, mas sobre aceitar o que o dia oferece. Às vezes o céu está apagado, a luz estoura, o movimento atrapalha, e tudo bem. O que importa é estar ali, inteiro, olhando.


O WCL me fez sair de mim mesmo um pouco. Me obrigou a me mover, a chegar mais perto, a olhar de outro jeito. E talvez seja isso que eu mais busco quando fotografo, um jeito novo de ver o que já vi.

Assunção ficou comigo desse jeito, como uma lembrança ampla, cheia de espaço. Uma cidade que não precisa se exibir pra ser bonita. Basta caminhar devagar, respirar fundo e deixar a luz fazer o resto.

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